E se o universo ao cair

eu te visse passar

teria a prova da existência de Deus


De que todas as funções celestes conspiram

para que se chegue mais perto da matéria inicial

e de que a liberdade é soprada como dedos

que balouçando nos acariciam


Se quando cerrar os olhos te vir chegar

terei a prova de que o tempo não passa

e de que é certo ser-se feito de eternidade


Formas de abrandar o tempo

quando somos projécteis incertos

e nos atiramos para longe como qualquer

objecto desconhecido


Nesse paralelo obscuro somos chamados de volta

a acordar do lado de cá da terra que nos

segura a memória e faz emergir

como raízes aéreas nos mangues 


E se o universo ao cair

eu te visse passar

daria testemunho da candura celeste

que as determinações são conjecturas

e no fim das contas sempre soubemos mais


Trabalho é trabalho, a obra é para sempre.

Tanta coisa que não se viu. A estrada de ferro Bahia-Minas, a
Amazónia, a Patagónia, os Andes, o Pantanal, pombas giras e o
olodum. João Gilberto escondido, e o Cristo Redentor. Manuel
Bandeira ou um kaiowá. Tanta coisa que não se viu e isso não se
faz. Crescemos nas ruas mais entupidas que alguma vez tínhamos
pisado e isso era bom. Corremos na Paulista, bebemos demais na
Consolação e ouvimos histórias de terror e glória todos os dias e
ponderávamos, quase sempre mal, por onde começar a obra.
Avistámos araras e arraiais, noites inteiras de olhos brilhantes, a
escutar. E as teses, quase sempre nefastas, atiravam-nos ao chão
em gargalhada. Uma outra mão se abria para oferecer o terreno
que a obra aguardava. Entrava-se em casa na Vila Mariana, e o
nada era o suficiente, meia dúzia de tupperwares e um colchão.
Um cafezinho e um misto quente, um sopro no cigarro e dar ao pé.
Subir à praça e entreter com o sotaque fazendo elegias ao drama.
Não sei porquê mas hoje dei por mim às voltas com a alegoria da
caverna e sacudi o pó aos ossos rachados, numa de arqueologia
tropical, onde fui encontrar um amigo num lugar remoto da
memória em que ele dizia que deveríamos arriscar mais na vida e
menos na obra - como se virar um hemisfério acabadinhos de
acordar para a vida fosse outra coisa. Agora, de forma diferente, e
com todas as vontades sob controlo e com um olhar mais
preparado, mais distante. Planar sobre todos os acontecimento de
forma a poder recuar quando necessário, com cautela no mundo
para que a obra possa existir. Preservar a obra, salvar a obra,
deixá-la tomar conta de nós. Então escrever uma despedida, que é
o que cada trabalho que nos sai das mãos deve ser. Uma longa e
demorada forma de aniquilação que se dissipa à medida que se
concretiza. Aos factos devemos a contemplação porque nos
trouxeram até aqui, mas aquilo que realmente ilumina é a luta que
se trava para transformar a escuridão que precede qualquer forma
de linguagem em substância. É nessa antecâmara que se combate
mais algum tempo até que se forme uma nova convulsão que
obriga a pensar e, é nessa obrigação, que nos concentramos.
Temos então de dominar a brutalidade que quer invadir continentes
e flanar, isto é, caminhar sem propósito. Com algum ritmo, de
certa forma, com rapidez. Percorrer avenidas com desembaraço - a
propósito da observação - cabisbaixo, talvez, mas com a certeza
de que mesmo coxo e roto se pode arquitetar a obra. Basta papel,
caneta e um plano. Ouvir atentamente, não esclarecer propósitos
e, no melhor dos casos, deixar na dúvida. O maior espanto? A
artimanha da sacanagem bem montada. Conhecemos artilheiros
dos bons, camafeus do mais fino calibre que tinham feito escola na
viragem do século e aprendido a lição, por ora, já se sabe, a curva
apertou e com qualquer areia se derrapa e que se lixe a obra.
Vamos lá ver, é a política, mais o serviço bem feito, mais a
conjuntura, menos a obra. Não há história que não se acabe, é
bem verdade, e podemos verter o cesto da fruta e ainda a alma
toda como que por tripas e corações de dias e noites infinitas em
que se perde toda a razão que, ainda assim, a história escorraça
as nossas ilustres causas para a rua, ou para a sarjeta ou para o
diabo que nos carregue. Portanto, dizer adeus é um processo
demorado, passam-se anos até que se fechem as contas com
certos eventos, certos dias e semanas e certos etc’s. Salgadelas
monumentais que ecoaram até aos tetravós. Noites infernais de
pós-dramático apenas toleráveis com Boazinha e algum espetinho.
Tanto por ver. O Rio Prata e o deserto do Atacama, Gal Costa e o
Sertão, e nós na sala de espetáculos ou de alguém à espera da
revelação. Livros e livros e não lemos nada, nadinha. E agora uma
despedida? E ninguém morre? E ninguém grita? E silêncio que lá
vem a obra? Nem uma abaladiça, ou um foguetório? Já sei,
exagero. E agora? Um homem e uma mulher diante de um balde
de sal, pouca luz, talvez. Duas cadeiras e duas mesas.
Conversam.
Ele diria qualquer coisa como:


Ricardo M.







Stay still do be still 
No wonder you are always lost  If a messenger you must be known  Then with messages you must return  To be seen by demanding hands  And touches of jealous men  Invisible and forgivable  To all their secret hands  Be it so be quick  Don't run just walk and walk and walk  Don't loose yourself to decorate  Somewhere on your wall  Cause somewhere in your mind  You know you are doing fine  Holding secret hair locks  You'll pluck before you hide  So how can I keep anything to myself  So how can I keep any of these to myself  So how can I keep anything to myself  Behind those clouds  I'm almost home





RM