Sempre gostei da palavra cardamomo.
I brought you a link

O assassinato de Thomas Brolin

O sol já se punha e as receitas do bar eram miseráveis, como sempre. No entanto ele tinha que ir, nada mais havia a fazer senão perseguir aquilo que faltava. Idolatrar solitários e loucos só pode conduzir a um lugar, ele sabe-o. Mas porque não são só histórias que eles contam, é preciso arriscar e espreitar pelo buraco da loucura de vez em quando. Conduziu pela noite dentro em estradas totalmente desconhecidas. Luzes ao longe de cidades decapitadas e mortas no meio do mato. Auto-estradas largas, como nos filmes americanos, no rádio só música viva e alegre. Nada se assemelha aos bons concelhos musicais do velho continente para noites tétricas. Esta noite morre-se, e é necessário cumprir com os pressupostos cénicos para que a coisa aconteça como deve ser. Thomas embrenhava-se pelo continente dentro. Num chaço sem espelhos, ou sofagem, curtindo o horizonte negro e baço da neblina da madrugada, ele só queria beber da sua garrafa de conhaque e chegar o mais rápido possível ao sítio combinado. Ao quilómetro trinta, ainda perto de Lisópolis, pensava que tudo poderia ser apenas um equivoco, e que a situação talvez não fosse tão grave como lhe faziam crer. Ao telefone tudo parece mais grave e complicado de resolver, uma questão de comunicação, pensou ele.  O alcatrão cheio de fendas e erva era algo a que não estava muito habituado. O carro dele era dos poucos que circulavam por ali aquela hora, só passava por ele um camião ou outro, muito de vez em quando. O conhaque e os nervos começavam a turvar-lhe a visão, o lugar não era longe, mas sentiu-se enjoado e capaz de vomitar, fumou um cigarro em substituição. O rádio não ajudava, e ele pensava que naquele país um tipo tem que andar sempre com música própria, ou acaba a ter que levar sempre com as mesmas canções e os seus infindáveis remakes. Não se pode ir a acelerar numa estrada daquelas, aquelas horas, ao som de uma canção com as palavras, minha querida, metidas ao barulho. Desliga-se. Breu. Nem um ponto de luz em volta, um fio de electricidade ou que quer que fosse. Sentia-se dependente daquele chaço como nunca antes. Um furo seria uma catástrofe, pois não tinha nenhum pneu suplente. Tinha a testa e as mãos molhadas do suor, tiritava do álcool e sentia que estava a perder o controlo do carro. Abrandava. O telemóvel não tocava, eram três horas e quarenta e sete minutos, quando será que o mundo acaba? Talvez não voltasse a ver o nascer do sol, e a última memória seria a de uma estrada velha rodeada por mato cerrado. Apetecia-lhe gritar, voltar para trás, mas não adiantava e ele sabia. Tudo o fazia avançar, mas principalmente o medo. Seria tudo, talvez, um mal entendido delirante. Uma piada de velhos conhecidos. Não, ele não conhecia ninguém dali. E era impossível alguém, que se considerasse seu amigo, fazê-lo passar por toda aquela experiência. Céus! - pensava. A garrafa chegava ao fim, e o trajecto também. A saída da auto-estrada estava próxima. Nem um som ou sinal de vida enquanto fazia a curva apertada que o levava a um ermo ainda mais assustador. Virando na próxima à direita ficava a menos de dois quilómetros do destino. Um caminho de terra batida não seria já uma surpresa, mas uma constatação óbvia de que a boca do lobo se fecharia. Entrou pelo caminho com o carro quase em ponto morto e, devagar, avançava sem a mínima certeza do que iria acontecer. Nada. Nem uma hipótese para especular, apenas terror. Ao fundo avistou um tipo no meio do caminho, e à medida que se aproximava percebia que este lhe fazia sinal para encostar. Obedece. Sentiu uma mão demasiado forte que o puxou e lançou repentinamente contra uma árvore ao mesmo tempo que lhe enfiava uma navalha no flanco esquerdo, pensou abaixo das costelas. Sem aviso ou ameaças, outra vez, desta vez mais fundo. Ele quase não grita, nem sequer questiona. Não se ouviu Thomas dizer, porquê? Nada. Apenas um gemido fundo e doloroso de quem queria viver, mas já se esqueceu há algum tempo de como isso se faz. Uma curva errada algures, pensou. Então é isto a morte? - pensou. Outra facada, desta vez nos rins, mesmo em cheio. Não consegue conter a dor e grita, mas sem eco, seco. No meio de mato serrado como aquele nada se faz ouvir a mais de meia centena metros. Cai no chão, de cara na terra olha os pés dos assassinos. E é chegado o momento de querer encontrar um sentido naquilo tudo que foi e que viveu, nada. Ele quer um momento de perfeição para recordar uma última vez, mas não consegue pensar, está a ficar demasiado fraco. Outra navalha volta a entrar nas suas costas, nos pulmões, pensa. E outra vez, e outra vez, e outra vez.

RM

                                                           Wolfgang Tillmans


                                                                                         

alternative mood


alternative title:

WE SHALL NOT LAST

RM






RAPTURE -- TO LAURA

by: Friedrich Schiller (1759-1805)

From earth I seem to wing my flight,
And sun myself in Heaven's pure light,
When thy sweet gaze meets mine
I dream I quaff ethereal dew,
When mine own form I mirror'd view
In those blue eyes divine!

Blest notes from Paradise afar,
Or strains from some benignant star
Enchant my ravish'd ear;
My Muse feels then the shepherd's hour
When silv'ry tones of magic power
Escape those lips so dear!

Young Loves around thee fan their wings --
Behind, the madden'd fir-tree springs,
As when by Orpheus fir'd;
The poles whirl round with swifter motion,
When in the dance, like waves o'er Ocean,
Thy footsteps float untir'd!

Thy look, if it but beam with love,
Could make the lifeless marble move,
And hearts in rocks enshrine;
My visions to reality
Will turn, if, Laura, in thine eye
I read -- that thou art mine!
Silence annoys jerks.